Entre 25 de fevereiro e 6 de março, São Gabriel da Cachoeira recebe 60 cirurgias e cerca de 2 mil consultas especializadas, com atendimento para 29 mil indígenas
Texto e fotos: Adriã Galvão


O município de São Gabriel da Cachoeira (AM) receberá, entre os dias 25 de fevereiro e 6 de março, um mutirão de atenção especializada à saúde voltado aos povos indígenas do Alto Rio Negro. A ação prevê a realização de aproximadamente 60 cirurgias e cerca de 2 mil consultas médicas.
O mutirão prevê consultas em pediatria, clínica médica, cirurgia geral, cirurgia ortopédica, ginecologia e obstetrícia, oftalmologia e reabilitação com fisioterapia. Os atendimentos serão realizados no Hospital de Guarnição de São Gabriel da Cachoeira e, nos dias 5 e 6 de março, também haverá atendimento itinerante em aldeias próximas à sede do município.
A mobilização contempla a população assistida pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Negro, que acompanha aproximadamente 29,4 mil indígenas distribuídos em 743 aldeias. A iniciativa foi estruturada para garantir o ciclo completo do cuidado, incluindo avaliação pré-operatória, realização dos procedimentos e acompanhamento pós-operatório na Casa de Saúde Indígena (CASAI).
A ação é coordenada pelo Ministério da Saúde, por meio do Programa Agora Tem Especialistas, em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS) e o Einstein Hospital Israelita.
No município mais indígena do Brasil
A escolha de São Gabriel da Cachoeira para sediar a ação considera as características singulares do território. Localizado no noroeste do Amazonas, na região conhecida como “Cabeça do Cachorro”, o município faz fronteira com a Colômbia e a Venezuela e tem acesso predominantemente fluvial e aéreo, fatores que impõem desafios logísticos à oferta regular de serviços especializados.
Considerada a cidade mais indígena do Brasil, São Gabriel da Cachoeira tem cerca de 90% da população formada por povos originários, reunindo 23 etnias, entre elas Tukano, Baniwa, Yanomami e Baré. Além do português, três línguas indígenas (Nheengatu, Tukano e Baniwa) são reconhecidas oficialmente.
Qualificação permanente e fortalecimento do SUS no território
Além dos atendimentos, estão previstas capacitações técnicas para os profissionais que atuam na região, incluindo curso de Suporte Avançado de Vida no Trauma (ATLS) e formação em emergências obstétricas, reforçando a qualificação das equipes e deixando um legado de longo prazo.
O gestor executivo da Unidade de Saúde Indígena da AgSUS, Edson Oliveira, destaca que o mutirão representa uma ação estratégica de integração entre serviços e comunidades, com impacto direto na saúde das populações indígenas.
“Levar cirurgias e consultas especializadas para dentro do território permite que as pessoas recebam atendimento próximo de suas comunidades, sem enfrentar deslocamentos longos, filas extensas e as violências que pessoas indígenas comumente enfrentam nessa busca. Além disso, qualificar as equipes locais garante que esse cuidado continue e se fortaleça, ampliando a resolutividade do SUS na região”, afirma.
A expectativa é que a ação reduza a demanda reprimida por atendimentos especializados e fortaleça a política de atenção diferenciada à saúde indígena no Alto Rio Negro, promovendo acesso e cuidado de qualidade dentro do próprio território.
