Mutirão do SUS no Médio Rio Purus encerra Abril Indígena com mais de 2 mil procedimentos

Ação levou atendimento especializado ao coração da Amazônia e ampliou o acesso à saúde para povos indígenas em territórios isolados

O Abril Indígena da Saúde foi encerrado com uma grande mobilização no território Médio Rio Purus, no sul do Amazonas. Entre os dias 25 de abril e 3 de maio, o Mutirão do SUS ocorreu no coração da maior floresta tropical do mundo, mais precisamente na Aldeia Limoeiro, do povo Deni, às margens do Rio Cuniuá. Foi lá que a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS) e o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), montaram a base para a atividade, que garantiu atendimento de qualidade e especializado para diversos povos da região.

Em uma semana de atuação intensiva, a ação realizou 2.372 procedimentos nas especialidades de clínica médica, oftalmologia, ginecologia e obstetrícia, pediatria e odontologia e garantiu assistência a indígenas das etnias Deni, Paumari e Banawá, ampliando o acesso a serviços de saúde em uma das regiões mais remotas do país. Somente na pediatria, foram 448 crianças atendidas, enquanto os atendimentos oftalmológicos alcançaram 1.166 pessoas.

Para viabilizar os atendimentos em um território de grandes desafios logísticos, foi montada uma estrutura robusta, com destaque para uma Unidade Básica de Saúde Fluvial (UBSF), um barracão oftalmológico e uma tenda multipropósito para triagem, imunização e orientações. A UBSF contou com cinco consultórios médicos, um odontológico, farmácia, laboratório e sala de medicação, além do apoio de três embarcações, sendo uma delas adaptada com consultórios adicionais.

“Pisar no chão da aldeia é lembrar que a saúde indígena se faz no território. Os mutirões mostram que é possível fortalecer o cuidado com respeito, interculturalidade e colaboração”, afirma a coordenadora de Atenção Especializada na Saúde Indígena da AgSUS, Talita Turmina. “Para nós que construímos políticas públicas e que promovemos ações de saúde, é muito gratificante ver o nosso trabalho chegando aqui, no meio da Floresta Amazônica”, completa.

Estratégia e resolutividade no território

A ação integra o Programa Agora Tem Especialistas, do Ministério da Saúde, e foi realizada em parceria com a Associação Médicos da Floresta (AMDAF). Para o mutirão, foram mobilizados 13 profissionais, incluindo médicos, enfermeira e cirurgião-dentista, além de equipamentos portáteis para exames como ultrassonografia, eletrocardiograma e análises laboratoriais. No total, a AMDAF transportou uma carga compacta de aproximadamente 200 kg, contendo os equipamentos necessários para a realização dos exames.

Além das consultas, foram realizados exames para detecção de ISTs, dengue, malária, covid-19, influenza e tuberculose, todos com resultados rápidos. Também foram feitos procedimentos diagnósticos como espirometria, avaliação de função renal, perfil lipídico e exames oftalmológicos completos.

O mutirão contabilizou cerca de 90 hemogramas, 28 consultas pré-natais e mais de 150 atendimentos odontológicos, além da realização de 15 pequenos procedimentos cirúrgicos e da distribuição de óculos e de medicamentos, como suplementos vitamínicos, antibióticos, analgésicos e remédios para casos mais específicos, diretamente na UBSF.

Segundo Francisco Júnior, médico participante da ação, levar especialistas ao território é essencial para garantir equidade no acesso à saúde. “O deslocamento até centros urbanos é difícil e custoso. Trazer estrutura, equipe e tecnologia para perto das comunidades permite um atendimento mais resolutivo e humanizado”, afirma.

Cuidado adaptado às realidades culturais

A ação no território Médio Rio Purus considerou as especificidades culturais e sanitárias de cada povo. Em alguns casos, o atendimento foi realizado fora da base principal, como no atendimento oftalmológico ao povo Suruwahá, feito em estrutura próxima ao território para evitar riscos de contaminação.

Outro exemplo foi o atendimento domiciliar a uma jovem indígena Deni, que, por questões culturais, não poderia se deslocar. Uma médica da equipe foi até a aldeia para garantir o acesso ao cuidado clínico.

Situações de maior gravidade também foram atendidas com rapidez: dois bebês com quadros severos de malária foram removidos por via aérea para Lábrea (AM), enquanto um grupo de idosos do povo Banawá foi transportado de helicóptero para atendimento odontológico.

Para a consultora técnica na Coordenação de Articulação Interfederativa e Regulação da SESAI, Vanessa Marla, a ação reforça o princípio da equidade no SUS. “Ao levar o atendimento até as aldeias, reconhecemos que o acesso aos grandes centros é o verdadeiro desafio para essas populações”, afirma.

Trabalho coletivo e participação comunitária

O mutirão contou com forte participação das comunidades locais, incluindo Agentes Indígenas de Saúde (AIS) e de Saneamento (AISAN), além de equipes do DSEI Médio Rio Purus e apoio da gestão municipal.

Ao todo, cerca de 40 profissionais atuaram diretamente na operação, envolvendo atividades de assistência, logística, alimentação, transporte e infraestrutura. A própria comunidade Deni contribuiu com a abertura de área para pouso de helicópteros e apoio na construção de estruturas temporárias.

A ação também garantiu transporte, alimentação e suporte para pacientes e acompanhantes, incluindo deslocamentos fluviais que chegaram a durar até dois dias.

“Essa iniciativa é muito importante para o nosso povo. Muitas vezes precisamos viajar semanas para conseguir atendimento”, destaca o indígena Apurinã e presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena (CONDISI) do DSEI Médio Rio Purus, Valcemir Jerônimo. “O mutirão do SUS chega em boa hora e precisa ser mantido de forma permanente, para garantir a saúde de qualidade aos nossos parentes no território”, avalia.

Pacientes satisfeitos

Genice da Silva Reis, do povo Apurinã, foi uma das pacientes atendidas no mutirão. Ela viajou de barco para ser atendida com seus dois filhos. “Graças a Deus, o que eu vim resolver, eu consegui”, diz ela, que, além do atendimento clínico, recebeu também as medicações necessárias.

Tanari Bukuredeni, da Aldeia Tikurihá, também fez parte do grupo que se deslocou de longe e encontrou no mutirão a esperança de alívio para suas dores. Ele conta que há seis anos sente dificuldades de locomoção e limitações físicas. “Faz tempo que eu sofro com essas dores, até para carregar mandioca fico doente, por isso vim ver o doutor”, disse, com confiança no atendimento especializado.

Impacto e continuidade

Mais do que uma ação pontual, o mutirão fortalece a integração dos atendimentos à Rede de Atenção à Saúde, promovendo cuidado contínuo e alinhado às especificidades culturais dos povos indígenas.

Para o coordenador do DSEI Médio Rio Purus, Ramir Rachid Said, a estratégia representa um avanço no acesso à atenção especializada. “O programa Agora Tem Especialistas responde a uma demanda histórica e melhora a vida dos nossos parentes indígenas”, afirma.

Os resultados refletem a dimensão da mobilização, mas, sobretudo, evidenciam o impacto do trabalho conjunto entre instituições, profissionais de saúde e comunidades.

“Desde o início do planejamento desta ação, atuamos de forma coletiva, com as lideranças, os caciques e os profissionais de saúde que atuam localmente e que conhecem essa população, e é por esse motivo que foram colhidos os bons resultados desse Abril Indígena. Os números mostram a força da operação, mas o principal resultado é ver o cuidado chegando onde ele é mais necessário”, conclui Talita Turmina, da AgSUS.